Beth Coe Maeda

"A alquimia permite criar jóias com argila, como faziam os egípcios.
É aí que o forno torna-se parte do universo onde o tempo é ignorado,
o fogo ainda é o mesmo e a magia do vidro se processa da mesma forma.
Com intensidade e energia o ceramista traz das cinzas o brilho e a poesia das cores,
transmitindo seu profundo amor à natureza."

Beth - Fevereiro de 2008



Esmalte com cinzas


Celadon


O fogo era fonte de luz e calor. Útil para cozer os alimentos. Foi quando o homem primitivo descobriu que, ao levar ao fogo certos materiais eles se transformavam em outras possibilidades. A terra poderia virar pedra! Daí surgiu a cerâmica.

Os egipcios foram os primeiros a ter uma cerâmica vidrada; as matérias primas de suas terras desérticas davam às suas peças e contas uma cor turquesa. Com sua pasta egipcia, onde sais soluveis de sódio migravam para a superfície da peça durante a secagem, obtiveram depois da queima um vidrado que imitava a pedra que usavam em suas jóias. Com suas técnicas viram que, ao misturar minerais com cobre em suas argilas, obtinham vidrados brilhantes, azuis e turquesas.
Mais tarde, descobriram que usando os mesmos materiais da pasta egipcia, poderiam fazer um esmalte para ser aplicado na superficie de suas cerâmicas, resultando num melhor controle de aplicação, cores e efeitos. Mesmo com esmaltes altamente alcalinos e difíceis de serem aplicados, os egípcios atingiam os 1050ºC em suas queimas.

Sirios e babilônios aprenderam a usar o chumbo em seus vidrados e a colori-los com ferro, cobre e manganês. O chumbo já resolvia grandes problemas de gretagem e resistência.
As cerâmicas primitivas chinesas tambem eram esmaltadas com chumbo, mas foi com a temperatura alta que se obteve um vidrado de melhor qualidade.
Com o aperfeiçoamento dos fornos, pelos chineses, já se alcançava os 1220ºC. Nessa temperatura os esmaltes eram perfeitos, sem gretar, sem desprender-se do corpo cerâmico e mais resistentes.

Totalmente por acaso, as cinzas passaram a fazer parte das peças cerâmicas. Descobriu-se que os restos da madeira que era usada como combustível nos fornos, voavam e caíam sobre os tijolos e peças durante as queimas. Reagiam com a argila e produziam um verniz natural, belo e expressivo, só com o movimento do fogo. Ao sacar as peças do forno, algum ceramista descobriu esse efeito ao ver o leve brilho que impermeabilizava suas peças.
Quando cozidas com maior oxigenação as peças eram amareladas, com redução adquiriam tons esverdeados.
As condições de queima, como temperatura, duração, tipo de forno e atmosfera e mais a composição das cinzas determinavam os resultados.
As temperaturas dos fornos que usavam lenha eram então controladas para a obtenção de um vidrado natural com as marcas do fogo e com as características das cinzas, o que dá à cerâmica um rústico encanto. As cinzas de madeira trazem efeitos muito bonitos aos esmaltes, como linhas escuras e ranhuras, num resultado rico em texturizados. Por séculos a cinza foi usada como fundente na alta temperatura.

O prazer, em trabalhar usando esmaltes com cinzas, é de poder tentar reproduzir uma técnica antiga com materiais encontrados facilmente na natureza. Sem forno à lenha, usa-se cinzas no esmalte.
No passado obter cinzas era mais fácil, pois muito se usava a lenha, mas isso não nos impede de tentar.

O uso de cinzas de madeiras ou plantas como ingrediente nos esmaltes torna variável sua composição química, conforme parte, origem e idade da árvore usada.
Uma grande quantidade de folhas ou madeira resulta em pequena porção de cinzas e consequente quantidade de esmalte, visto que alguns vidrados são feitos com até 50% delas.

Ainda que básico, o conhecimento das matérias primas usadas e das reações químicas responsáveis pela formação dos vidrados seria interessante. Usando adequadamente os materiais, as chances de se alcançar o resultado desejado são bem maiores, o que se traduz em economia de tempo e trabalho.

As cinzas podem ser lavadas. Só testes concluirão se há diferença entre usa-las lavadas ou não. Se o resultado for semelhante, pode ser que não compense a lavagem. O processo é simples mas envolve algum trabalho.
Consiste em deixa-las de molho em água - depois de misturar bem - para que decantem. Nunca misturar com as mãos as cinzas que estão de molho. É necessário o uso de luvas de borracha, pois a solução é bastante cáustica. Tira-se então a água com as sujeiras que migram para a superfície e repete-se o procedimento por algumas vezes.
As cinzas podem ser secas sobre gesso ou folhas de jornal. Quando secas podem ser peneiradas e estarão prontas para o uso. (cuidado com as correntes de ar, pois as cinzas continuam corrosivas).
A refratariedade (dureza) das cinzas depende da sua composição quimica. Se têm muita silica e alumina, terão um ponto de fusão mais alto.
As cinzas de casca de arroz por exemplo, são muito duras (refratárias) pois têm em média 75% de silica e em torno de 9% de alumina.
Podem ser usadas cinzas de conchas do mar, que devem ser calcinadas por volta de 1000º, dentro de um pote de cerâmica em biscoito. Depois de peneiradas são usadas como fundente nas receitas.

Os esmaltes com cinzas vão apresentar diferenças no aspecto final, como textura e cor, modificando-se por exemplo: a camada de aplicação ou a atmosfera da queima, se oxidação ou redução. Os esmaltes com cinzas tendem à escorrer, os cuidados com relação às prateleiras do forno, devem ser tomados, como uma boa aplicação de caulim e alumina.

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Cascas de arroz
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Flores do Cedro
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Calcinando farinha de ossos
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Cinzas diversas para testes
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Flores de Cedro se tornando cinzas